terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Ancorado, mas nem sempre a salvo...

 

 Ancorar é quase uma arte e nada tem a ver com o simples fato de jogar um ferro na água

Por Lucas Tauil de Freitas

Boa parte dos acidentes de automóvel acontece a poucos quarteirões de casa, porque o motorista já está tão habituado com o caminho que baixa a guarda. Com barcos não há estatísticas precisas, mas não são poucos os casos de navegadores até experientes que perderam seus barcos quando já estavam parados e ancorados. O famoso navegador francês Bernard Moitessier, por exemplo, circum-navegou o globo mais de uma vez, mas perdeu seu barco numa simples praia, depois de ele desgarrar na ancoragem.
 
Ancorar é uma arte cheia de traquejos. O elementar é escolher uma baía que ofereça proteção contra os ventos predominantes na região e que tenha um tipo de fundo que agarre bem a âncora, com boa tensão. Isto é o básico. Mas só isso não basta. Tanto ao baixar o ferro quanto ao escolher uma poita para prender o barco é preciso calcular qual será o raio que o casco girará, no caso de o vento ou a maré mudarem e, não pode haver nada dentro dele.
 
Escolhido o ponto ou a poita, é preciso aproximar-se bem devagar, para que o barco pare exatamente no local e com a proa apontada para o vento.
 
Baixar a âncora é outra função que requer técnica e paciência, não basta apenas jogá-la na água, como à primeira vista parece. Ela deve ser solta lentamente, para apenas tocar o fundo. Em seguida, também lentamente, deve-se deixar o barco ser arrastado pelo vento para trás, ao mesmo tempo em que se solta mais corrente para a âncora, ou deve-se engatar a ré, ainda mais lentamente. Se a âncora descer rápido demais, ela puxará muita corrente, que poderá embolar sobre a própria âncora, impedindo o seu perfeito funcionamento.
 
Quanto à quantidade de cabo ou corrente, calcule cerca de três vezes a profundidade do local. Ou cinco, no caso de mau tempo, mas nunca se esqueça do tal raio de giro equivalente. Caso o barco não tenha condições de girar totalmente, uma possibilidade é baixar uma segunda âncora, presa por uma alça à corrente da primeira, por um cabo independente. Este cabo deve ter o comprimento do raio de giro possível. Isso irá reduzir o raio de giro da embarcação em torno da segunda âncora, que, por sua vez, também manterá a corrente bem firme no fundo.

Uma vez com a âncora no fundo, deve-se engatar uma ré bem forte, para testar se ela agarrou no fundo de fato, ou unhou, como dizem os velhos marinheiros. O mesmo vale para as poitas, neste caso, para testar a integridade dos seus cabos. E, como seguro morreu de velho, sempre costumo fazer algo mais, além de tudo isso: mergulhar para ver se está tudo bem mesmo lá embaixo. Exagero ? Não acho. A história náutica está repleta de casos de gente que sabia tudo de mar e, mesmo assim, perdeu seu barco quando ele estava parado e supostamente seguro na ancoragem. Portanto, na dúvida, mergulhe. Até porque, se o lugar for realmente bonito, será isso que você irá fazer em seguida, não é mesmo ?
 
 
Lucas Tauil é instrutor de vela e está fazendo uma volta ao mundo, na qual recebe alunos a bordo do Veleiro Santa Paz (www.santapaz.com)

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