segunda-feira, 22 de junho de 2009

Diário de Bordo do Traslado do Novo Planeta Água de Salvador - BA à Angra dos Reis - RJ

O Novo Planeta Água Delta 36 na Bahia Marina, Salvador - BA.

Quinta-feira, 28 de maio de 2009.

Estamos em Salvador na Bahia Marina aguardando uma melhora no tempo para então seguirmos rumo ao Rio de Janeiro. Silvio (Capitão Caverna) Labres e eu estamos ansiosos para velejar, o barco agora já esta em ordem ou quase (assim cremos), ontem a noite resolvemos fazer um carreteiro de charque "baiano" ou melhor um carreteiro "baiúcho". Não sem antes desmontar todo o fogão que se negava a colaborar para o intento "carraterístico". Manutenção feita...Meia noite nos deliciávamos com o prato "baiúcho".

Sexta-feira, 29 de maio de 2009.

A manhã e parte da tarde foram consumidas com compras... Cabos, alimentos, e até a galões para transporte de diesel.

16:00h Fizemos vista grossa para aquela superstição de não sair na sexta (xô uruca!) e soltamos as amarras do "Emoções" (vamos mudar para Planeta Água) mais tarde entenderíamos o quanto este nome tem tudo haver com o barco. Detalhe, saímos sem seguro, a seguradora pediu um prazo de 05 dias para fazer a vistoria... Não podíamos esperar, nosso prazo final para estar em Angra era 08/06... Eu ainda teria que voltar de avião a Florianópolis para de carro fazer o caminho de volta a Angra com o restante da tripulação (Marta e Vitória) a fim de participarmos do VII Encontro Nacional da ABVC que se iniciaria dia 11/06...Uffa!!! Bastou deixarmos o farol da barra pela popa para sentirmos todo o desconforto de um mar desencontrado com vento contra, situação de tempo muito ruim mesmo, mas nem pensar em voltar... Temos que seguir adiante e também a previsão meteorológica para o dia seguinte era animadora. Foi uma noite para se esquecer, sem poder cozinhar nos limitamos a consumir lanches frios. Cansados resolvemos arribar para Ilhéus.

Ilhéus - BA.

Sábado, 30 de maio de 2009.

14:00h Fundeamos enfrente ao Ilhéus Iate Clube... Molhados e cansados, tratamos de organizar o barco. Abastecemos e em seguida colocamos o bote na água, fomos até a sede do clube onde tomamos um banho "frio" e nos deliciamos com uma refeição quente. Decidimos seguir viagem amanhã, hoje vamos dormir uma noite de sono merecida e reparadora.

Domingo, 31 de maio de 2009.

06:30h Vamos deixando o molhe do porto de Ilhéus por BE... O vento continua na proa, porém mais fraco, nosso problema agora é uma corrente contra de 1,5 nós. Algumas horas mais tarde a previsão de tempo animadora se confirma, o vento ronda e entra de NNE.

Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, Ilha de Santa Bárbara.

Segunda-feira, 01 de junho de 2009.

15:00h Chegamos ao Parque Nacional Marinho dos Abrolhos com corrente a favor de 1 nó e vento de popa. Recebemos as boas vindas do operador do rádio farol de Abrolhos, que nos sugeriu pegar uma das poitas disponíveis no lado sul da ilha de Santa Bárbara, e assim foi feito. Não se pode desembarcar na ilha de Santa Bárbara que é a ilha principal, fomos informados que o desembarque tem que ser autorizado pela marinha. As outras ilhas do parque são, Redonda, Siriba, Sueste e Guarita a única aberta a visitantes é a Siriba. Acabamos não desembarcando, falando mais uma vez com a estação rádio farol... Pedimos a previsão para as próximas horas e fomos informados de uma frente fria que estava para entrar na quarta-feira às 24:00h Resolvemos abastecer, transferindo o diesel dos galões para o tanque resolvemos o problema combustível. Assando no forno o peixe fisgado pela manhã resolvemos o problema fome e 4 horas após nossa chegada estávamos mais uma vez partindo rumo a Vitória, a idéia era chegar a Vitória e escapar da tal frente.

19:00h Vento NE o barco anda bem 07 a 08 nós, mas a coisa tinha que mudar afinal seriam muitas "Emoções". Navegamos algo em torno de 30 milhas e demos literalmente de cara com a frente fria. Passava das 23 :00h noite alta e confesso a vocês... Em todos os meus anos navegando eu nunca vi nuvens tão feias, tão assustadoras. Raios, muitos raios... Chuva forte, ao tentarmos olhar para a proa não podíamos abrir os olhos éramos castigados pela força da chuva aliada ao vento, o mar crescia vertiginosamente e o barco batia muito. Com muita dificuldade a genoa foi enrolada e o grande reduzido ao 1º rizo, agora motorávamos fazendo de 01 a 02 nós, não conseguíamos ir adiante... Para evitar as batidas resolvemos dar bordos, mas algumas ondas perdidas igual faziam o barco dar batidas que doíam em minha alma. Agora além da chuva as ondas que embarcam sem permissão nos encharcam. O vento atingiu 35 nós (força 8), o mar esta revolto e branco, espuma pra todo o lado. E o barco sem seguro! Pra completar uma voz invade o ar, no rádio VHF sempre ligado no canal 16 a operadora anuncia: - Vitória Rádio "Chamada Geral" , embarcações na área entre Vitória e Aracruz (Barra do Riacho) embarcação de pesca Urso Branco desaparecida com 04 tripulantes, procurar avistar, assistir e informar. Da pra imaginar a nossa cara ? Eu já estava pedindo ao todo poderoso para que acalmasse aquele turbilhão em que nos encontrávamos. Percebemos que não conseguiríamos chegar a Vitória com aquelas condições de vento e mar... A opção era a Barra do Riacho, um porto particular da Aracruz que fica 30 milhas ao sul de Vitória.

Velejada desconfortável entre Abrolhos e Vitória

Terça-feira, dia 02 de junho de 2009.

Velejamos o dia todo dando bordos... Tentavamos andar para frente e atingir a Barra do Riacho (Aracruz). Repito sem medo de estar dizendo bobagem, foi o pior mar em que naveguei... O Pesqueiro Urso Branco e os 04 pescadores continuam desaparecidos a Vitória rádio esta sempre nos lembrando o que nos espera se cometermos algum erro.

Barra do Riacho, Porto Aracruz - ES.

Quarta-feira, 03 de junho de 2009.

04:00h da manhã, destruídos fundeamos junto a prainha ao fundo do porto (Aracruz) Barra do Riacho - ES. Foram 33h massacrantes, onde foram colocadas a prova nossa capacidade de lidar com condições extremamente adversas de mar, vento, frio, orientação, emoção, técnica, enfim... A natureza nos sabatinou a fim de saber se éramos ou não homens do mar... Acredito que fomos aprovados, a final estamos contando a história.

Acordamos com os ruídos provenientes da movimentação do porto, pontes rolantes transportando containers, carretas sendo carregadas e descarregadas e os rebocadores num vai-e-vem sem parar. Logo mergulhamos na faina... Havia um vazamento de óleo diesel que se espalhara por debaixo dos paineiros e o cheiro estava insuportável. Envolvidos na solução do problema, não percebemos que o vento mesmo dentro do abrigo havia aumentado e nossa âncora havia garrado, só notamos quando o Caverna saiu para o cockpit a fim de pegar a caixa de ferramentas que estava no paiol e anunciou: - Comandante estamos garrando e indo de encontro aos navios. Voei para fora... Caverna com a mão na chave deu partida no motor, não, não deu, tenta de novo, nada. Desce e vira a chave ponte, ok. Vira, nada. Putz! - Comandante o Navio esta mais próximo. Alerta o Caverna. Olho para o paiol e penso em pegar as defensas, mas desanimo olhando o imenso navio ao qual íamos de encontro, não vai adiantar defensa alguma... E o barco sem seguro! Quando tudo parecia perdido, noto o Caverna fazendo sinais para um rebocador que já se aproximava o operador do possante sai da cabine e grita apontando para o outro lado: - Aquele rebocador menor vai vir socorrer vocês. O todo poderoso existe e gosta da gente... Quando o mini rebocador chegou o cabo já estava pronto e nos rebocaram arrastando âncora e o que estivesse pela frente. Nos amarram a uma poita usada pelas dragas que trabalham no porto, e nos disseram: - Daqui vocês não saem mais. Antes de ir embora os operadores do mini rebocador ainda nos emprestaram uma bateria para fazer uma ponte. Rudmar e Alex estes são os nomes de nossos salvadores operadores do rebocador Minibola da Ocean Boat. Mais tarde ainda na faina descobrimos que a bateria de partida do motor estava pifada, era lixo. De tempos em tempos eu olhava o mar, lá fora a coisa continuava feia e o vento mesmo dentro do abrigo soprava na casa dos 25 nós.

Rebocador nos auxiliando na Barra do Riacho (Aracruz).

Durante a tarde do dia 04/06 o vento e o mar começaram a dar uma trégua... Checamos mais uma vez a previsão e decidimos sair às 23:00h para Vitória. Acabamos antecipando a saída para às 20:30h e a próxima escala seria Guarapari. Na verdade não agüentávamos mais ficar ali, na Barra do Riacho (Aracruz), também já estávamos sem água nos tanques e com pouco diesel e o lugar não oferece pontos de abastecimento nem local para descarte de lixo.

Quinta-feira, 04 de junho de 2009.

20:30h Finalmente deixamos o porto da Aracruz... Mar calmo, vento SSW...Velejada tranqüila durante toda a noite...Graças ao todo poderoso. Eu já tinha perdido as esperanças de chegar na data marcada em Angra...

Abastecimento no Rio Guarapari, Guarapari - ES.

Sexta-feira dia 05 de junho de 2009.

07:00h Entramos na enseada de Guarapari para o que seria um pit stop rápido. O Caverna não viu a chegada a Guarapari, estava a horas desmaiado no cockpit usando como travesseiro a catraca de BB. Abastecemos com diesel, água, tomamos um café no posto em frente e fomos ao supermercado comprar alguns itens que tinham acabado o super fica bem perto do ponto de abastecimento.

08:30h Soltamos as amarras rumo ao Rio de Janeiro... O dia foi tranqüilo, uma velejada gostosa. As 02:00h avisei o Caverna que ia dormir um pouco e pra minha surpresa acordei só às 06:00h. O Caverna tinha arribado para Cabo Frio mais precisamente para o Boqueirão, vindo do N deixamos a ilha do Cabo Frio por BB...Justificou a arribada mostrando uma luz vermelha acesa no painel. - Vamos preparar um café e ver o que é que tem este motor!... Deve ser o alternador. Sentencia o Caverna.

Praia do Farol, Ilha do Cabo Frio - RJ.

Sábado, 06 de junho de 2009.

07:00h fundeamos em frente a Praia do Farol na ilha do Cabo Frio, um lugar muito bonito onde a natureza se mostra por inteiro em um mar cristalino, praias de areias brancas, costões, e o majestoso e imponente Boqueirão. Eu já havia estado aqui quando subimos a costa com nosso primeiro Deltinha de 26 pés, mas voltarei todas as vezes que tiver oportunidade. Enquanto preparei o café, o Caverna deu uma olhada no motor... Era realmente o alternador, um carinho nele e pronto a luz não acendeu mais. Em seguida colocamos o bote na água para tirar algumas fotos. Não demorei para notar algumas rajadas de vento mais forte, olhei na volta e no topo da ilha algumas nuvens negras se concomunavam para estragar nosso final de viagem. Através do portal formado pelo Boqueirão vi o mar encarneirado... Pronto lá vamos nós outra vez, rapidamente subimos o bote e suspendemos a âncora.

Chegando a Rio de Janeiro - RJ.

09:00h Passamos pelo Boqueirão e lá estava ele nos esperando o vento que predomina na costa brasileira o "Vento Contra". Arribamos um pouco e regulamos as velas a fim de tornar a velejada menos dolorida... Mais uma vez o mar crescia, e já tomávamos alguns banhos frios com ondas intrometidas. Algum tempo depois eu já havia desistido de chegar a baía da Ilha Grande... Avisei ao Caverna que iríamos entrar na baía da Guanabara e fazer mais uma escala... Agora no Iate Clube do Rio de Janeiro.

19:30h Estávamos confortavelmente amarrados na bacia (piscina) do ICRJ onde gentilmente nos permitiram ficar, pois tratava-se-se de mais uma parada rápida... Banho, que maravilha de chuveiros! Jantar, que maravilha de restaurante! Soninho, que maravilha de caminha! Por muito pouco o Caverna não fica dormindo sentado na varanda do clube, o sujeito estava bem cansado.

Iate Clube do Rio de Janeiro

Domingo, 07 de junho de 2009.

08:30h, Por rádio agradeço ao ICRJ a acolhida e lentamente vamos saindo da enseada de Botafogo, mas não sem admirar mais uma vez as belezas da cidade maravilhosa. Mal passamos a Ponta de São João e o oceano nos deu bom dia... Ondulações enormes entravam na baía. No través de Copacabana consultamos o altímetro e este acusou uma variação de 5 metros ou seja a vaga tinha este tamanho... Nossa sorte era o intervalo entre uma onda e a próxima que era de 12 segundos o que nos permitia velejar. Esta condição de mar nos acompanhou durante todo dia, a cada mudança de rumo o vento nos acompanhava para ficar exatamente em nossa proa... Aquele vento predominante o "Vento Contra" . Não nos restava muito a não ser dar longos bordos... Ao entrarmos na baía da Ilha Grande, o vento rondou e continuou "Vento Contra" não acreditávamos, aquilo era impressionante. Para encerrar sem mais nem menos as luzes de navegação da proa BB/BE simplesmente se apagaram em plena baía da Ilha Grande...Logo onde. O Caverna se irritou e com seu canivete Suíço foi até lá dar um jeito... E deu, as ditas voltaram a funcionar.

21:30h Cansados chegávamos ao píer do Porto Marina Bracuhy, cansados sim... Mas ainda com forças para procurar um bar aberto e comemorar as 1000 milhas vencidas com tantas dificuldades e sem "seguro".

Veja mais fotos no formato original clicando no link abaixo:

http://picasaweb.google.com.br/veleiroplanetaagua/NovoPlanetaAguaDelta36TrasladoDeSalvadorBAAAngraRJ?feat=directlink

2 comentários:

  1. Meus sinceros cumprimentos pelo empenho, dedicação, amor e paixão que tens pela escrita, a forma como escreve, faz da leitura um bálsamo para quem lê, fanzendo-nos entrar e vivenciar cada fato que descreve. Parabéns, e sucesso sempre.
    Beijo

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  2. Obrigado Almiranta,
    Você é a grande cumplice, parceira e apoiadora.
    Se tenho a oportunidade de vivenciar estas aventuras e depois contar estas histórias e porque tenho a certeza de poder voltar sempre para você "meu porto seguro".
    Ti amo
    Beijo

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