terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Naufrágios no Atol das Rocas - IV

Por ficar tão pouco acima do nível do mar, o Atol das Rocas é uma grande armadilha para os navegadores, que simplesmente não o vêem. Como Rocas não tem água potável, tampouco vegetação para fazer sombra, não fica difícil imaginar o por que de uma das duas ilhotas chamar-se Cemitério.

Os naufrágios são parte da história do Atol das Rocas. Os primeiros relatos de naufrágios ocorridos nos recifes de Rocas são do começo do século XIX, mas sabe-se que Rocas despedaça navios muito antes disso.

A primeira citação do Atol das Rocas, em carta náutica, foi publicada em 1502 por Alberto Cantino, representado sob a forma de mancha a Oeste da ilha de Quaresma (hoje conhecida como Fernando de Noronha).

A história dos homens no Atol das Rocas é pontuada por lendas, naufrágios, mortes e até fantasmas. Não há registros claros de quem descobriu essas terras perdidas, talvez porque o descobridor tenha também ido ao fundo. Alguns autores atribuem a descoberta a Gonçalo Coelho, em 1503, na mesma expedição em que ele descobriu Fernando de Noronha. O que se sabe, com certeza, é que os navegadores do século XVI já temiam seus recifes rasos.

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Apesar de tal temor generalizado, persistente mesmo depois de iniciada a era dos barcos e navios a motor, a localização precisa e o registro das coordenadas exatas do Atol das Rocas, nas cartas de navegação, só aconteceu neste século, em 1957, o Ano Geofísico Internacional. Durante os séculos XVI, XVII e XVIII, o atol manteve centenas de comandantes de olhos abertos, noite e dia, durante a travessia entre a costa brasileira e o arquipélago de Fernando de Noronha. Mesmo atentos ao menor sinal de espuma, muitos deles foram enganados pelas miragens - de mar agitado com cansaço, de brumas espessas com sono - e acordaram tarde demais, quando os cascos já faziam água.

Além dos problemas com a visibilidade, boa parte dos acidentes é atribuída às correntes marítimas. Os barcos provenientes da costa africana e da Europa, sobretudo veleiros, são empurrados pela corrente Sul Equatorial direto para os recifes, que circundam toda a ilha. A corrente é mais forte no fim de setembro/início de outubro e fim de março/início de abril, quando os ventos alísios de sudeste e noroeste convergem sobre a linha do Equador. A corrente atinge, então, velocidades de até 1,5 a 2 nós. Muitos dos naufrágios aconteceram nestes períodos. Entre 1803 e 1890, a história registrou seis grandes naufrágios de navios. Quatro deles ocorreram em outubro, um em março.

O naufrágio mais famoso desta época foi o do Duncan Dunbar, navio inglês com 117 tripulantes e passageiros a bordo, a maioria emigrantes saídos de Plymouth, Inglaterra, com destino a Sidney, na Austrália. O Duncan Dubar alcançou a corrente equatorial ao desviar das calmarias. Acabou com o leme destruído e um enorme rombo no casco, na noite de 7 de outubro de 1865, ao se chocar contra os recifes do Atol. Homens, mulheres e crianças só abandonaram o navio na manhã seguinte, quando a fúria das ondas já havia destruído também parte do costado. Apinhados nos escaleres, atravessaram milagrosamente ilesos a arrebentação e desembarcaram na areia, onde permaneceram 10 dias. O resgate só aconteceu graças a um gesto heróico do comandante, capitão Swanson, que deixou o Atol num escaler com mais seis de seus marinheiros, para seguir rumo à costa brasileira. Em cinco dias, eles chegaram ao litoral pernambucano e tiveram a sorte de encontrar outro navio inglês, o Oneida. Arriscando afundar por superlotação, o Oneida embarcou todos os náufragos - arruinados, mas vivos - e com eles empreendeu a longa jornada de volta à Inglaterra, sem novos incidentes.

Em 1883, a instalação do primeiro farol reduziu o medo dos navegantes, mas deu asas às lendas de morte, nascidas da solidão dos faroleiros. Uma das línguas de areia ganhou o nome de Ilha do Cemitério, porque ali foram enterrados os faroleiros, seus familiares e os náufragos. A ausência de fontes de água doce colocava a vida dos faroleiros na precária dependência do abastecimento do continente ou na esperança de chuvas para encher as cisternas. Na virada do século, mulher e filhos de um dos faroleiros teriam morrido de sede, porque uma das crianças deixou a torneira da cisterna aberta até secar. O faroleiro, desesperado, tocou fogo na casa, para ver se atraía algum navio, mas o socorro chegou tarde e só ele sobreviveu. Conta ainda a lenda que as almas da mulher e das crianças estariam presas à ilha de sua desgraça e, à noite, assombram os visitantes, pedindo água.

As luzes dos faróis - tanto o tradicional como o automático - diminuíram os naufrágios, mas não os eliminaram. Ainda hoje o recifes traem a atenção dos timoneiros e interrompem bruscamente os sonhos de viagem. Em 26 de junho de 1979, naufragou o Mon Ami, um veleiro de 13 metros e dois mastros. Seus tripulantes, três sul africanos e uma australiana, passaram 21 dias num acampamento improvisado no Atol, dividindo as provisões do seu veleiro e a água da chuva com ratos, camundongos, escorpiões e baratas. Involuntariamente introduzidos pelo homem em Rocas, esses típicos representantes da fauna urbana alimentam-se de plantas rasteiras e restos de comida, abandonados pelos pássaros e visitantes humanos, que, como os seres irracionais, também espalham lixo em torno da própria casa, mesmo sendo esta uma barraca temporária em meio a uma paisagem paradisíaca. O lixo dos navios e dos naufrágios, também chega às praias de Rocas e garante vida farta aos animais especialistas em detritos.

No naufrágio do Mon Ami, a tripulante australiana - Eunice Toussaint - relata o terror de acordar com um camundongo enroscado nos cabelos e a batalha contra os ratos e escorpiões, um dos quais mordeu o sul africano Dorrier Kewon. Às vezes, segundo o diário, também as aves vinham remexer a comida dos náufragos, na esperança de safarem-se da pesca diária. Apesar dos insistentes sinais de socorro pelo rádio, dos salva-vidas jogados ao mar com pedidos de ajuda, dos acenos dirigidos a um avião no oitavo dia, os náufragos do Mon Ami só foram resgatados no dia 16 de julho por uma corveta da Marinha brasileira, após a passagem de mais um avião e da comunicação via rádio com um petroleiro norueguês, visível no horizonte. O petroleiro retransmitiu o pedido de socorro à Marinha, que estava fora do alcance do rádio dos náufragos.

Em 1982, mais um veleiro, o Taurus, de 12 metros, fez água nos recifes do Atol das Rocas, obrigando quatro franceses a uma estadia forçada de uma semana na Ilha do Farol. Eles fizeram uma tenda com a vela do barco e queimaram o resto dos panos e madeira. As fogueiras foram vistas por pilotos da Força Aérea Brasileira, no retorno de Fernando de Noronha, e o resgate dos náufragos ocorreu no dia seguinte, por uma corveta da Marinha.

A partir dos anos 90, os candidatos a Crusoé puderam dispensar as velas e ter abrigo certo em duas casas de madeira pré-fabricadas, instaladas ao lado das ruínas do antigo farol, para as equipes de voluntários, no revezamento de fiscalização do Ibama. A preocupação maior dessas equipes é com a ousadia crescente dos pesqueiros industriais nas águas de pesca proibida, além de eventuais vazamentos de diesel e outros poluentes, às vezes trazidos de alto-mar pelas correntes. A ameaça nuclear parece afastada - pelo menos a intenção absurda de enterrar lixo atômico ali, cogitada por autoridades governamentais em 1982 - mas nunca há uma garantia total, com a manutenção das usinas nucleares de Angra dos Reis e a produção de um lixo ainda sem destino. Como se vê, apesar dos fantasmas e do terror, que se tornou sinônimo do Atol para tantos navegadores do passado, o que realmente ainda assombra suas praias é o comportamento do bicho-homem.

Registros de Naufrágios no Atol das Rocas

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1805 - Quase se perdeu em Rocas toda uma esquadra inglesa que se dirigia para a Índia. Bateram nos recifes e naufragaram o "BRITÂNIA" e o transporte "KING GEORGE".

1855 - "COUNTESS OF ZETLAND", barca inglesa que carregava algodão em Maceió-AL e açúcar em Recife-PE.

1856 - O "TRUE TRISTON", sob o comando do Capitão REYNELL experimentou um desembarque nas Rocas para averiguar sinais que pareciam e que de fato eram de sobreviventes de um naufrágio.

1860 - Galera francesa "ÏMPERATRICE DU BRÉSIL", que fazia a linha Havre - Rio de Janeiro.

1865 - A galera a vapor "DUNCAN DUNBAR", viajando de Londres para Sidney, arrebentou seu casco na parte noroeste da borda recifal. O Capitão Swanson navegou numa lancha durante oito dias até o porto do Recife com alguns marinheiros. 117 pessoas e a guarnição conseguiram se abrigar milagrosamente na Ilha do Farol. O paquete "ONEIDA" que ia para Europa, recuperou de passagem os náufragos das Rocas.

1870 - A embarcação "MERCURIUS" bateu no anel recifal e se desconjuntou. Dos 22 homens, apenas 06 sobreviveram. Foram salvos pelo Capitão Cuthbertson, da embarcação "SILVER CRAIG", após 51 dias de desespero.

1871 - O Capitão de Fragata Alves Nogueira viu ainda restos de abrigo dos náufragos do "MERCURIUS". Contou os testemunhos de dezoito naufrágios nos baixios de Rocas. 1880 - O Comandante Antônio Coelho Ribeiro Roma, do cruzador "MEDUSA", relatou que o número de barcos sinistrados não parecera menos de dezenove.

1882 - O Coronel de Engenheiros João de Sousa Melo e Alvim apresentou um relatório ao Ministério da Marinha informando que: "só daqueles navios de que existem as peças principais ou as mais resistentes a ação das intempéries, contei com o Capitão-Tenente José Maria da Conceição Júnior, dezoito naufrágios".

1890 - JOQUERINA.

1979 - O Veleiro "MON AMI" de 42 pés bateu nos recifes, seus 04 tripulantes passaram 21 dias em um acampanhento improvisado no Atol das Rocas.

1982 - Barco pesqueiro PRODUMAR II, com 12 tripulantes.

1982 - O Veleiro "TAURUS" de 39 pés naufragou nos recifes, 04 franceses ficaram uma semana na ilha do Farol. Eles montaram uma tenda com a vela mestra do barco.

Fontes:

Instituto Aqualung, Equipe da Reserva Biológica do Atol das Rocas, Ibama - RN.

National Geographic Brasil

Sites: Luciano Candisani, História do Mar e Wikipédia.

Leitura Sugerida:

  • Brasil Aventura - Ilhas / Ana Augusta Rocha e Roberto Linsker
  • Atol das Rocas / Luciano Candisani
  • Na terra No céu No mar / Luciano Huck e Rodrigo Cebrian

5 comentários:

  1. a historia deste atol é imensa! os brasileiro deveriam conhecer mais dela...

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  2. Concordamos com você, são poucos os brasileiros que sabem da existência do Atol das Rocas, que dira, conhecerem suas histórias e lendas. Para nós foi uma experiência inesquecivel conhecer e estudar as ilhas.

    Abraços

    Família Maciel

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  3. PARABÉNS PELA FAÇANHA... PRINCIPALMENTE DE IR ATÉ LÁ SEM TER CERTEZA QUE PODERIA DESEMBARCAR NO ATOL, BOM QUE DEU TUDO CERTO ! BOA SORTE... COMO FAZEM PARA SE LIVRAR DE TEMPESTADES COMO AQUELA QUE VIROU O VELEIRO-ESCOLA CANADENSE? NÃO TEM MEDO?

    FÁBIO CAVALCANTE - BRASÍLIA-DF
    cavalcantefab@gmail.com

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  4. E O PENEDO DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO, TOPA? HUAHUAHUA...

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  5. Olá Fábio!
    Ficamos muito contentes com seu comentário!
    O Atol foi uma experiência inesquecível... Pretendemos retornar em breve! Fábio, para não passar por uma experiência parecida com a da tripulação do Navio Veleiro Escola Concórdia, procuramos estudar bem os boletins meteorológicos das áreas que estamos navegando para não sermos pegos de surpresa. Em casos de ventos muitos fortes, baixamos todos os panos e corremos com o tempo em árvore seca (sem velas). Quem diz não ter medo de mau tempo e de mar alto é muito tolo... Temos medo sim! O medo nos faz mais cautelosos e isto no mar é bom. Quanto aos penedos de São Paulo e São Pedro estão em nossa lista junto a com a ilha da Trindade. Assim que tivermos novidades vamos avisar você!
    Abraços e sempre bons ventos!
    Família Maciel

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