quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Histórias do Farol & Faroleiros de Rocas - III

Um pedido de instalação de um farol na ilha principal das Rocas, foi feito desde o ano de 1852 pelos comandantes estrangeiros Lee, Parish, Selwyn e pelos brasileiros Vital de Oliveira e Alves Nogueira, como indispensável para a segurança da navegação naquelas ermas paragens, pois pela baixa altitude das Rocas e na falta de uma luz, os naufrágios ali eram freqüentes, mas não tanto quanto vieram afirmar vários autores.

Só em 1881, o capitão-tenente Honorário J. M. da Conceição Júnior, foi incumbido de ali montar um farol. Auxiliou os trabalhos, o coronel de engenharia João de S. Melo e Alvim, para fazer o estudo do local e a verificação da possibilidade da instalação do aparelho luminoso encomendado à França. Melo e Alvim fez sondagens para exame do recife, sondagens estas que atingiram a seis metros de profundidade na atual ilha do Farol, encontrando sempre muita dificuldade e em alguns furos resistência quase que absoluta. A perfuração era feita com ponta aguda de aço temperado, sobrecarregada com um peso de 115 quilos, havendo ocasiões de só haver penetração de um centímetro por hora, tendo-se partido o aparelho por duas vezes.

Feito o estudo dos recifes, concluiu Melo e Alvim, não ser conveniente a colocação do farol encomendado, em razão de suas grandes proporções e de sua impropriedade naquele local, pois o mesmo - julgava ele - não tinha a base suficiente para resistir à resultante dos fortes e constantes ventos da região. O farol então veio a ser aproveitado para Santo Agostinho, em Pernambuco, e nas Rocas foi instalado provisoriamente uma luz fixa, no tope de um mastro de madeira, com 14 metros de altura, inaugurada no dia primeiro de janeiro de 1883. Mas em 1884 esse mastro veio a ser substituído, devido ao seu péssimo estado de conservação. Quando se decidiu por esta mudança já tinham sido iniciadas algumas obras; ou seja, estavam construídas: uma larga base de alvenaria, com uma altura de 1,1 metros; a casa dos faroleiros por acabar; depósito de água com capacidade para 20 pipas e 4 galpões para guardar materiais. Tudo isto foi feito debaixo de grandes dificuldades, principalmente durante o transporte do material do navio para a ilha. Os homens passaram por muitos riscos de não só perder o que transportavam, mas as próprias vidas.Assim, se ocuparam em 35 dias de trabalho áspero e perigoso. Para a construção das casas dos faroleiros e do farol pediram 600 toneladas de pedra, 200 de areia e 700 barricas de cimento. Este material parece não ter sido todo desembarcado e nem fornecido, por não ter sido construído o farol antes para ali planejado.

No relatório de 1883, o Ministro da Marinha concluiu que nas Rocas se devia levantar uma torre de alvenaria, a qual era a estrutura mais apropriada para aquela localidade. No entanto, só em 1935 foi construído um farol de cimento armado.Em 1887, a bordo do Purús seguiu pessoal e material para concluir as obras das casas dos faroleiros. Em 1890, o almirante francês Mouchez se referia a elas, comentando que tinham dois pavimentos, de paredes cinzentas e teto de telhas vermelhas. E que a casa e o depósito que se encontravam ao lado eram os primeiros objetos que se percebiam por quem navegava ao largo, numa distância de 5 milhas.

Em 1892, foi feita uma encomenda para uma empresa de Paris, de um farol de terceira ordem, tendo este chegado no ano seguinte, ficando depositado em Pernambuco. Em 1906 foi feito outro orçamento para a construção definitiva do foral nas Rocas, porém, em 1908, o Almirante Jaceguai, resolveu montá-lo na ilha Rata, em Fernando de Noronha, e entregou ao Estado de Pernambuco um verba destinada para colocar um poste de luz nas Rocas. Este aparelho foi inaugurado em 8 de dezembro de 1908, consistindo numa armação de ferro, ao noroeste do Atol da Rocas, exibindo luz branca e ficava a 18,5 metros acima do nível do mar. Em 6 de outubro de 1914 foi o farol transformado em automático, sistema AGA.

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Em 1935, ficou resolvida a construção de um farol nas Rocas de cimento armado. Para isso foram empregadas cinco toneladas de vergalhões, 20 metros cúbicos de areia e cerca de 100 sacos de cimento. E no dia 20 de agosto de 1935 foi inaugurado o farol das Rocas. Hoje a torre de alvenaria se encontra em ruínas.Foi desativado em 1969, estando em ruínas juntamente com a casa do faroleiro e a cisterna que acondicionava água potável.

Em 1967, foi inaugurado o farol que permanece em atividade até hoje. É constituído por armação quadrangular metálica, pintada de branco, refletor radar, altura de 14 metros e altitude do foco de 18 metros, com válvula solar e carga de gás acetileno com 12 acumuladores, latitude 03º 51' 42" S e longitude 33º 49' 16" W, alcance luminoso de 13 milhas. Em 1986 o farol foi eletrificado, com a substituição de acumuladores por baterias, instalação de painel solar e troca da lanterna.

Os faroleiros do Atol das Rocas

Até 1914 quando transformaram o farol das Rocas em automático, foram inúmeros os faroleiros que lá trabalharam e isto, desde o dia primeiro de janeiro de 1883. Decerto alguns deles entraram para a história. Mas infelizmente seus dramas estão espalhados em vários documentos. Entretanto se consegue arrolar alguns fatos de relativa importância que envolveram alguns daqueles anônimos faroleiros - de vida modesta , que sob o sol, a chuva, o frio, nada os fazia esmorecer em seu labor de vigília noturna. Quem visitava o farol das Rocas naquela época - isolado no meio do oceano - conseguia avaliar a maneira sofrida de viver de seus heróicos faroleiros e daqueles que os acompanhavam, ou seja, as suas famílias.

E, realmente, Rocas parece ter uma aura de dificuldade ao seu redor. Em 1887, foi ali construída uma casa para um faroleiro e sua família. Conta-se, com voz baixa e consternada, que um certo dia, a pequena filha do casal, sem saber o que fazia, deixou a torneira do reservatório de água potável aberta, até que não houvesse uma gota. Desesperado, o faroleiro teria colocado fogo na casa, na esperança de chamar a atenção de algum navio. O que de fato conseguiu, após muitos dias, quando toda a sua família já havia morrido. Ele estava vivo por ter tomado o sangue de pássaros, mas não resistiu à viagem, morrendo antes de chegar ao continente.

Em 14 de outubro de 1904, o faroleiro Gregório Vitoriano de Castro, faleceu nas Rocas, sendo sepultado na ilha que batizaram de Cemitério. Nas Rocas existe apenas duas ilhas e certamente o batismo dado aquela ilha proveio do fato de que era ali que se enterrava os mortos dos naufrágios. Também nas Rocas viera a falecer, a esposa do faroleiro Antônio Augusto da Câmara; contudo ela não foi sepultada na Ilha do Cemitério e sim, próximo ao único coqueiro existente na Ilha do Farol naquela época.

Encontra-se registrado que o faroleiro João da Silva Saraiva que residiu nas Rocas por cerca de oito anos, veio certa vez, sofrer as agruras da falta d’água, com o seus três filhos que lá nasceram, uma vez que o navio de abastecimento demorou em chegar. Mas João da Silva, procurou todos os meios de obter socorro, entre os quais, o de lançar garrafas contendo no interior, mensagens escritas, explicando o que lhe vinha acontecendo. Porém ao mesmo tempo, tentava conseguir água para beber, fervendo a do mar numa vasilha, da qual fazia de tampa um chapéu, cujo pano se impregnava de vapor d’água que se condensava em pequenas gotas. Consta que as garrafas foram dar à costa e o navio encarregado do abastecimento chegou ainda a tempo de terminar com o sofrimento do faroleiro e de sua família.

Outro que sofreu com a falta de recursos, foi o faroleiro Virgílio Francisco Ramos, isto em abril de 1913. Achava-se ele com a família quando o navio que fazia o serviço de abastecimento, de dois em dois meses, atrasou-se.Mas antes disso, Virgílio e sua família tiveram que lançar mão de peixes e ovos de pássaros, os quais foram os alimentos nos primeiros quinze dias. Contudo, passando este tempo, os seus organismos se ressentiram e iniciou-se para eles um novo período de angustia. Felizmente, um navio inglês, que passando ao largo, foi contactado por Virgílio através de sinais, ao hastear as bandeiras do Código Internacional de Sinais, solicitando socorro. O navio então rumou em direção das Rocas, onde veio fornecer-lhe carne em conserva, arroz e açúcar. O faroleiro entregou ao capitão inglês, uma carta endereçada as autoridades de terra, pedindo imediata providência. Logo o navio da Marinha Benjamim Constant, transportou para as Rocas, os víveres que o faroleiro e sua família tanto necessitavam. A história conta, que esta teria sido a última família a morar ali, e que resolveram voltar para Noronha, quando da automatização do farol. Nascidas e criadas nas Rocas, as duas filhas do faroleiro morreram ao chegar em Noronha. Por terem sido criadas ali, não haviam desenvolvido nenhuma imunidade as doenças.

Um ano depois, precisamente em 6 de outubro de 1914 foi o farol das Rocas transformado em automático, dando término aos labores e sacrifícios impostos aos faroleiros e suas famílias, em um lugar marcado por tão grande isolamento e tragédias marítimas. Atualmente ainda se pode ver as ruínas da antiga casa dos faroleiros.

Fontes:

Instituto Aqualung, Equipe da Reserva Biológica do Atol das Rocas, Ibama - RN.

National Geographic Brasil

Sites: Luciano Candisani, História do Mar e Wikipédia.

Leitura Sugerida:

  • Brasil Aventura - Ilhas / Ana Augusta Rocha e Roberto Linsker
  • Atol das Rocas / Luciano Candisani
  • Na terra No céu No mar / Luciano Huck e Rodrigo Cebrian

17 comentários:

  1. Achei muito interessante,sou Neta do Faroleiro vírgilio Ramos, realmente as duas filhas dele, no caso minhas tias morreram, mas meu pai ficou vivo, quando adulto,tornou-se tb oficial da Marinha, teve muitos filhos. Meu pai se chamava Moacir Francisco Ramos. Hoje sinto muito orgulho dessa historia.

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  2. Angie,
    Ficamos muito felizes com seu comentário, a confirmação da veracidade da história do faroleiro Virgilio Ramos é muito relevante para nós, também indica que nosso rumo estava certo. Angie, gostaríamos de contar com você para nos dar mais detalhes desta história de sua família e se for de sua vontade publicarmos neste blog e em outras mídias voltadas para o meio náutico.
    Você deve sentir mesmo orgulho desta história, pois, eles foram verdadeiros heróis!
    Abraços
    Fernando, Marta e Vitória

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  3. Olá
    Trabalho escrevendo roteiros para cinema e gostei muito dessa história. Gostaria de obter contato com a neta do faroleiro Virgílio Ramos.
    Obrigado.

    Durval

    jul.jr@uol.com.br

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  4. Oi Durval,

    Estavamos velejando na Baía da Ilha Grande... Por isso, a demora em retornar seu comentário. Desde o comentário da Angie, não tivemos mais nenhum contato com ela. Também gostaríamos de saber mais sobre esta história fascinante. Se tivermos alguma noticia entramos em contato, mande seu e-mail por favor.

    Bons ventos

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  5. Estava passando por aqui, pesquisando coisas sobre a Marinha, sobre meu avô Moacir Francisco Ramos, ao qual hoje se encontra falecido, e acabei por encontrar vocês, achei linda a pesquisa em que fizeram sobre meu Bisavô Virgilio Ramos, Infelizmente não tive o prazer de conhece-lo, porem mamãe retrata historias bonitas dele.

    bom, quem quizer algum contato,
    Meu nome é Jéssica Pereira Domingos

    e-mail: jessicapereiradomingos@hotmail.com

    ou

    jessicapd92@gmail.com

    Muito Feliz pela historia, e orgulhosa por fazer parte dessa Família.

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    1. Jessica pena que nao nos conhecemos pessoalmente, mais vamos mudar isso, pergunte,sobre mim para Vírginia oudona Luzia, Moacir meu irmao seu tio, vc deve conhecer, eu vivo na Suiça, mais sempre que vou a Recife faço uma visitinha a dona Lúzia... Deus te abençoe grandimente, fico muito feliz que vc tb tenha interesse por essa origem que temos, tao bonita, tao guerreira, estar em nosso sangue.. Conte aos seus filhos no futuro e aos seus netos, nao deixemos essa hístoria tao brava ser esquecida. Me procure me mande um meail. Um xeru

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  6. Oi Jessica!
    Esta história é realmente surpreendente, não sei se você viu, mas, o primeiro comentário deixado aqui por: ANGIE é de uma parente sua... Talvez uma tia ou mesmo sua mãe. Já o segundo comentário do Durval, solicita mais informações para a montagem de um roteiro para cinema, o e-mail dele é: jul.jr@uol.com.br Jessica mantenha contato e se quiser mandar alguma história pra gente, será um prazer publicar em nosso blog.

    Abraços
    Família Planeta Água

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  7. Pois sim, é Tia minha, meu Vô Moacir, foi casado 2 vezes, mamãe é de seu primeiro casamento, Tia ANGIE é de seu segundo Casamento...
    Pode deixar, entrarei em contato...
    Bom, como ja vinha dito, não conheci meu bisavô Virgilio Ramos, não tive esse prazer, porem mamãe conta-me muitas historias dele, vou conversar com ela, logo mais trarei boas novas a vocês.
    Meu avô Moacir Francisco Ramos, ele se Tornou Faroleiro tambem, e existe uma Historia a qual talvez vocês gostem...
    Gostariam que eu postasse por aqui mesmo, ou teria um e-mail para que eu possar estar enviando-lhes?

    Atenciosamente

    Jéssica Pereira Domingos

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  8. Oi Jéssica!
    Que bom poder contar com você... Mande pra gente no e-mail: fomaciel@terra.com.br se você conseguir mandar uma foto sua para ilustrar a matéria melhor ainda.

    Abraços
    Família Planeta Água

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  9. Fico muito feliz que essa hístoria q foi tao escondida pela marinha, esteja sendo agora tirada das profundesas do oceano, acredito que toda nossa família conheça muito bem essa hístoria o que nos traz muito orgulho. O fantastico ja tentou uma vez levar ao ar essa bela hestoria, mais para tdecepçao do meu pai, foram cortadas muita coisas. Eu vivo fora do Brasil e fica dificil manter o contato por aqui, famos por email. Meu email é: anginha_ ch@yahoo.com.br

    Minha sobrinha Jessica, muito prazer... Deus te abençoe, me ache pelo facebook com o nome de Angie Gome.

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  10. Nossa, achei fantástica essa história!
    Valter

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  11. Olá Valter,
    também somos fascinados pelas histórias do Farol de Rocas e seus faroleiros... Nos comentários acima você encontra troca de mensagens de descendentes deles.
    Abraços
    Família Planeta Água

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  12. Simplesmente sensacional!!!!

    Sandra Ramos

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  13. Espetacular tudo isso!!!
    Parabéns família Planeta Água!

    Bons ventos a todos

    Willy Costa Filho

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  14. Que bom amigo Willy Costa Filho !
    Seus elogios são nossa maior motivação para continuarmos a pesquisar.
    Bons ventos !

    Fernando, Marta e Vitória

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  15. Cara Sandra Ramos,

    Agradecemos por dispor de seu tempo ao ler nossa pesquisa... Obrigado pelo elogio !

    Bons ventos !

    Fernando, Marta e Vitória

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  16. Tarde fria meio chuvosa por aqui, quase nada pra fazer, relembrando sobre minhas aventuras como faroleiro e logo veio em mente uma comissão que fizemos para o arquipélago de São Pedro e São Paulo onde montamos a (primeira) estrutura da estação onde se daria início ao Programa Arquipélago de São Pedro e São Paulo (Proarquipélago) e depois de toda a faina da estação concluída, iríamos ter que fazer a manutenção do dois faróis existentes no Arquipélado de Fernando de Noronha, mas antes tínhamos que passar também no Atol das Rocas onde iríamos fazer manutenção do farol(treliça)lá existente.
    Localizei esse blog em um site de busca e me deparei com essa hitória maravilhosa que me deixou bastante comovido e ao mesmo tempo orgulhoso também por ser um faroleiro.
    Me me inseri na história para tentar imaginar a emoção vivida por muitos que ali passaram. Apesar de que ja sabia parte da história, mas confesso que fiquei bastante emocionado pela narrativa e sobretudo as riqueza dos detalhes aqui expostos.
    E o Sr. Durval Jr. alguém saberia me informar se ele realmente escreveu algum roteiro para cinema como era a sua intenção?

    E como dizemos sempre...Bons ventos, mares tranquilos e que o Senhor dos Navegantes ilumine seus caminhos, o acompanhe e sempre proteja suas singraduras no porvir.

    (ycaray@ig.com.br)

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