domingo, 7 de dezembro de 2008

Atol das Rocas, Simplesmente Mágico - I

03/10/08 - Sexta-Feira, 17:00h... Chegou a hora de partir, estamos curtindo o lado bom de ficar ilhado a uma semana. Fundeamos na baía de Santo Antônio em Fernando de Noronha, no domingo passado. É a sétima vez que visitamos o paraíso, e como não poderia deixar de ser, o pecado rolou solto... Afinal, paraíso combina com pecado, então... Acho que cometemos quase todos.

Terminado o happy hour a bordo, levantamos âncora, proa no Atol das Rocas distante 81MN de Noronha, RM292°. Emílio Russel, comandante do Voyager nos disse que ia tentar fazer uma parada no Atol das Rocas, pois dependeria da autorização da chefe do parque para fundeio e desembarque. Chegar ao atol junto com os primeiros raios do sol, assim programamos.

Passava das dez da noite quando deixamos a Ponta da Sapata por BB, saímos do abrigo de sotavento proporcionado pelo relevo da ilha para encarar um mar muito batido. Na verdade, nós já sabíamos o que nos aguardava, no dia anterior a meteorologia já deixava claro que a navegada não seria das mais confortáveis. Infelizmente, não podíamos aguardar uma melhora nas condições do mar, nosso vôo para Porto Alegre já estava marcado.

A expectativa de desembarque no atol me excitava, já falei no meu fascínio por ilhas... A possibilidade de conhecer um lugar único e de difícil acesso mexia comigo, no atol só se chega por mar e o desembarque só acontece se o mar e o Ibama deixarem, poder estar naquele lugar, contemplar suas belezas, poder fotografar para depois compartilhar a experiência com os amigos, tudo gerava em mim um misto de ansiedade e euforia.

A noite foi difícil, de tempo em tempo o convés do Voyager em seus 60 pés era lavado de proa à popa. Na madrugada, em um dos turnos que eu estava no leme, Mestre Djalma me diz: - "Gaúcho, estas ondas do buraco até o topete tem uns 4 metros".

Amanheceu, eu quase não dormi... O mar batido, os turnos e a ansiedade me tiraram o sono. Marta dormiu ou tentou dormir no salão, estou muito orgulhoso de minha "almiranta", navegar 500MN em um mar que não estava para brincadeira, cozinhando, lavando louça e organizando o barco, com certeza são tarefas para velejadores safos, conheci poucos que as cumprem sem desmoronar na inclemência do enjôo, mareados.

Em pé junto ao leme, consigo ver na linha do horizonte o que parece ser a torre do farol. Vida longa ao GPS! - Ilha na proa!...Grito. No mesmo instante, a pequena tripulação do Voyager se agita. Procuro pelo convés uma melhor posição para avistar o destino de nossa viagem. Para mim é um momento muito especial, o primeiro contato visual com a ilha há muito sonhada. Lentamente, os poucos contornos do atol vão se mostrando... Uma quase imperceptível ilha branca entre a imensidão azul do oceano aberto e o céu. Ver a terra surgir na água é uma das maiores emoções das longas velejadas. Depois do impacto da primeira impressão, embaçada pela distância, a paisagem vai tomando contornos nítidos, aos poucos, no ritmo ditado pelo vento. A imagem do lugar sonhado, criada previamente no inconsciente, funde-se lentamente com o cenário real que cresce diante dos olhos. É como um encontro entre sonho e realidade.

Emílio e Nico atentos ao VHF... Ouviram uma conversa entre a base do IBAMA na ilha e um outro veleiro. Notei pelo olhar e a expressão de ambos que aquilo não era bom sinal. Nico agora no leme, pede: "Fernando, da uma olhada e vê se consegue encontrar o outro veleiro". Saio apressado pelo convés cambaleante, mais uma vez em busca da melhor posição para agora avistar o outro veleiro. Uma breve vasculhada no horizonte à proa, e lá estava o mastro, denunciando a presença e a posição do barco que a pouco ouvíramos se comunicando com o atol via VHF. Ares de preocupação e desânimo tomam conta dos rostos de Emílio e Nico. A preocupação fazia sentido, pois se com um barco já era tarefa difícil obter autorização para visita ao atol, com dois a tarefa tornava-se especialmente "delicada".

Mestre Djalma assiste a tudo impassível, calmo; de fala mansa; e por vezes se expressando num tom quase inaudível... Sugere: "Emílio, pega o rádio e chama logo a Zélia, se for pra desembarca nós vamo se não... Toca pra Natal logo".

E assim foi, Emílio respira fundo; pega o rádio; chama o atol e em seguida se identifica; alguns segundos se passam e uma voz feminina invade o ar, era a Zélinha dando as boas vindas ao Voyager e sua tripulação. Era a senha... Como num passe de mágica; agora Emílio e Nico estavam sorrindo e relaxados. Eles sabiam que mesmo conhecendo Zélinha há muitos anos, e com toda a papelada em dia, nós só iríamos desembarcar no atol se a "xerifa" desse permissão. Ela é, literalmente a dona do pedaço. Não é brincadeira!... Não é, não. Bater de frente com a Zélinha, é por tudo a perder... A ida a Noronha e as mais de dez horas navegando em um mar bem batido.

Zélinha colocou seu inflável de cor laranja no mar, e na companhia de outro pesquisador o "Magrão" veio ao encontro do Voyager. Ela é uma espécie de guardiã da reserva. Funcionária de carreira do IBAMA, bióloga apaixonada pelo Projeto Atol das Rocas, Maurizélia de Brito Silva (não a chame nunca pelo nome de batismo, ela não gosta) é desses profissionais que aparecem muito raramente, principalmente quando se trata de ecologia, meio ambiente e órgãos federais. Apesar de sua aparente fragilidade - ela mede pouco mais de 1,60 metro e deve pesar uns 45 kilos -, Zélinha é dona de uma força interior impressionante. Zélinha vive para o atol, e o atol sobrevive por causa dela. Entender-se bem com a Zélinha é a garantia de uma estada segura e agradável.

Zélinha e Magrão encostaram o bote laranja no Voyager, e depois de feitas as devidas apresentações, Emílio com sua simpatia e conhecendo Zélinha a anos, felizmente quebrou a formalidade e o gelo. Nico, Emílio e Zélinha agora falam ao mesmo tempo... Tentam colocar os assuntos em dia, matar as saudades e curiosidades. Foram trinta minutos, talvez mais, talvez menos, de sala, salamaleques, rapapés e bajulações. E eu ali, vendo a praia pertinho, louco para estar lá.

Então, Zélinha resolve ficar a bordo do Voyager para continuar o "conversê", mas antes incumbe Magrão de nos acompanhar em um "Atoltur porreta". Enquanto nos preparávamos para o desembarque, sim, ali tem que haver uma preparação no mínimo cautelosa. Equipamentos fotográficos e eletrônicos devem ser ensacados, é recomendável que a roupa do corpo seja de banho porque o banho é cortesia de Rocas...Emílio pergunta: "Zélinha o que é que vocês estão precisando?" Para minha surpresa, a resposta de Zélinha foi imediata: "Coca-Cola". No mesmo instante, Emílio pega uma caixa plástica, abre um paiol logo abaixo de nossos pés e começa a tirar vários litros daquele líquido agora tão precioso. Em seguida, carregando a caixa plástica vai até os freezers e também visita as geladeiras, (o Voyager esta equipado com 03 geladeiras e 02 freezers), no final a caixa esta abarrotada de mantimentos diversos para a equipe do atol. A tripulação do Voyager, além dos mantimentos doou também para a equipe do atol um galão de combustível.

Tudo e todos acomodados no bote laranja... Magrão acelera em direção a pequena passagem existente no anel de recifes, passagem que é vencida com cuidado e conduz na maré alta há uma enorme laguna de águas cristalinas. Por alguns segundos, ficamos hipnotizados com a cor do mar simplesmente fantástica. Encalhamos o bote laranja na praia, e meio molhados, finalmente pisamos nas areias do Atol das Rocas. E aí a primeira surpresa, Magrão com ar de sabichão explica que as areias de Rocas, não são areias. De um branco característico, as "areias" do Atol das Rocas são classificadas como falsas, pois derivam apenas do calcário moído de incontáveis fragmentos de conchas, ossos de aves, de peixes e de detritos vegetais (esqueletos de seres chamados vermetos), que ocuparam as rochas vulcânicas, estabilizando a faixa de recifes emersa, geralmente na forma de um círculo ou semicírculo, com uma laguna no meio. Em rocas, as areias acumularam-se em duas faixas, em forma de anel aberto, compondo a Ilha do Farol e a Ilha do Cemitério. Magrão completa dizendo que: Na maré alta, apenas as duas ilhas ficam emersas. Já na maré baixa surgem na área interior do atol várias piscinas naturais, de tamanhos e profundidades variadas, que funcionam como berçários para diversas espécies marinhas.

Caminhamos pela paradisíaca praia em direção a uma casinha de madeira, abrigo das equipes de quatro pessoas que se revezam na tarefa de cuidar de um dos principais refúgios da vida marinha no Atlântico. Magrão nos apresenta a mais dois colegas da equipe, Gisele e Marcelo, recebemos dos três uma montanha de informações sobre o Atol das Rocas; curiosidades, histórias, lendas, fauna, flora, geologia, meteorologia, projetos e pesquisas. Estas informações, achei melhor dividir em 03 partes e publicar separadamente... Vocês vão encontrar tudo nas postagens a seguir.

Continuamos nossa caminhada por esta pequena ilha da fantasia, aqui estão os poucos sinais da presença humana no local, as ruínas de um farol para onde nos dirigimos agora, seis coqueiros repletos de Atobás e a pequena casinha, símbolo da frágil presença humana neste ponto isolado do oceano. O cenário é deslumbrante, montado com cuidado rigoroso nos detalhes, composto por ninhais, animais únicos, uma praia com coqueiros, uma laguna verde esmeralda, tudo dominado pelo mar cristalino e soberano. Marta e eu, fizemos dezenas de fotografias. Tentamos registrar tudo, difícil é registrar as sensações que nos invadem aqui. Entre nossas fotos de Rocas, muitas imagens tentam transmitir estas emoções, mas só chegando até aqui para senti-las verdadeiramente.

Em Rocas, sentimos uma energia surpreendente, talvez resultante de um mundo pouco explorado pelo homem. Pequena ilha Brasileira de natureza real e quase intacta, fantástico mundo azul, fantástico "Planeta Água".

"Nos sentimos náufragos voluntários, mas ao mesmo tempo, estávamos profundamente felizes por estar no atol".

Fontes:

Instituto Aqualung, Equipe da Reserva Biológica do Atol das Rocas, Ibama - RN., National Geographic Brasil - Sites: Luciano Candisani, História do Mar e Wikipédia.

Leitura sugerida:

  • Brasil Aventura - Ilhas / Ana Augusta Rocha e Roberto Linsker
  • Atol das Rocas / Luciano Candisani
  • Na terra No céu No mar / Luciano Huck e Rodrigo Cebrian

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